Negócio próprio é principal fonte de renda para 52% das nanoempreendedoras do Nordeste

Pesquisa aponta que 73% das mulheres iniciaram atividade por necessidade e 76% faturam até R$ 3 mil por mês; estudo também mostra impacto da economia do cuidado sobre a autonomia financeira

O negócio próprio é a principal e única fonte de renda familiar para 52% das nanoempreendedoras do Nordeste, segundo o estudo Nanoempreendedora em Foco: Identidade e Paradoxo da Autonomia, realizado pelo Instituto Consulado da Mulher, em parceria com a Engie, apoio da Be.Labs e execução da Vert.se.

O levantamento mostra que o empreendedorismo feminino na região está diretamente relacionado à necessidade de geração de renda e à dificuldade de conciliar trabalho e responsabilidades familiares. Setenta e três por cento das entrevistadas afirmam ter iniciado seus negócios por necessidade, enquanto 76% faturam até R$ 3 mil por mês.

O cenário também revela a dimensão familiar dessa renda. Segundo a pesquisa, 83% das famílias das nanoempreendedoras nordestinas vivem com renda total de até três salários mínimos.

Mulheres negras são maioria entre as nanoempreendedoras

O levantamento apresenta ainda um recorte racial relevante. No Nordeste, 80% das nanoempreendedoras se declaram mulheres negras, percentual acima da média nacional de 71% e dos 68% de mulheres negras na população nordestina, segundo dados da PNAD 2024 citados pelo estudo.

A estrutura familiar também aparece entre os fatores que influenciam a atividade econômica. Quarenta e um por cento das entrevistadas não têm parceiro residente em casa, enquanto 82% são mães.

Esse contexto contribui para que o empreendedorismo seja utilizado como alternativa para geração de renda com maior flexibilidade de horários.

Formação superior não garante acesso ao mercado formal

Um dos aspectos destacados pelo estudo é o chamado Paradoxo da Qualificação. Apesar das dificuldades de inserção no mercado formal, 42% das nanoempreendedoras nordestinas possuem ensino superior completo ou pós-graduação.

O percentual supera a média nacional de 40%.

A pesquisa relaciona esse cenário à rigidez do mercado de trabalho formal e à falta de infraestrutura pública para conciliar atividade profissional e responsabilidades familiares, citando como exemplo a escassez de creches em tempo integral.

Na prática, a formação acadêmica não tem sido suficiente para garantir a inserção dessas mulheres em empregos formais.

O resultado aparece também na renda: 76% das empreendedoras nordestinas faturam até R$ 3 mil mensais.

Trabalho doméstico e empreendedorismo se misturam

A chamada economia do cuidado é outro elemento central apontado pelo levantamento. Quase sete em cada dez mulheres entrevistadas são as únicas responsáveis pelo trabalho doméstico.

Ao mesmo tempo, 56% afirmam trabalhar mais atualmente no próprio negócio do que trabalhavam quando tinham carteira assinada.

A sexta-feira concentra o maior volume comercial para 80% das empreendedoras, que intensificam as atividades para atender à demanda do fim de semana.

A combinação entre trabalho remunerado e tarefas domésticas também aparece associada a impactos sobre a saúde. Cinquenta e nove por cento relatam enfrentar desafios relacionados à saúde mental. Segundo o estudo, 49% desenvolveram ansiedade, depressão ou estresse intenso após começar a empreender.

Outros 46% trabalham convivendo com dores crônicas ou limitações físicas, principalmente na coluna, no pescoço e nas pernas.

Empreendedorismo é visto como alternativa à CLT

Apesar das dificuldades, o negócio próprio é percebido por grande parte das entrevistadas como uma alternativa para manter a renda e conciliar as responsabilidades familiares.

Seis em cada dez nanoempreendedoras afirmam que jamais ou raramente pensam em retornar ao regime CLT.

Para Adriana Carvalho, diretora-executiva do Instituto Consulado da Mulher, o empreendedorismo feminino precisa ser analisado também sob a perspectiva da autonomia e da economia do cuidado.

“Não podemos tratar o nanoempreendedorismo apenas como um pequeno negócio que precisa crescer, mas sim uma ferramenta de independência financeira e emocional que movimenta toda a cadeia financeira do país.”

Segundo a executiva, o fortalecimento econômico das mulheres também depende do enfrentamento da sobrecarga do trabalho doméstico e das dificuldades relacionadas ao cuidado com a família.

Capacitação apresenta impacto sobre renda e autonomia

O estudo também identificou resultados positivos entre mulheres que participaram das formações oferecidas pelo Instituto Consulado da Mulher.

Após as capacitações:

  • 53% registraram aumento da renda pessoal;
  • 69% afirmaram ter conquistado maior independência financeira;
  • 80% alcançaram maior equilíbrio entre a gestão do negócio e os cuidados com a família.

Para Marcela Fujiy, fundadora da Be.Labs, os dados ajudam a evidenciar desafios que ainda recebem menos investimentos e atenção nas políticas de desenvolvimento econômico.

Fé e comunidade também fazem parte da estratégia de negócio

A pesquisa identificou ainda o papel das redes comunitárias na atividade econômica das mulheres nordestinas.

Oitenta e oito por cento afirmam que a fé é fundamental para não desistirem dos negócios.

Além disso, 55% utilizam espaços religiosos como principal ponto comercial para divulgação e venda de produtos.

Os dados mostram como redes de relacionamento e estruturas comunitárias podem funcionar como canais de divulgação e comercialização para empreendedoras que atuam fora do mercado formal.

Como a pesquisa foi realizada

O estudo Nanoempreendedora em Foco: Identidade e Paradoxo da Autonomia foi desenvolvido em duas etapas.

Na fase qualitativa, foram ouvidas 120 mulheres em grupos focais de diferentes regiões do país.

A etapa quantitativa contou com 371 respondentes participantes de programas de desenvolvimento socioeconômico das instituições parceiras.

O levantamento busca compreender o perfil das nanoempreendedoras, os fatores que levam à criação dos negócios, as condições de trabalho, renda, autonomia financeira e os impactos da economia do cuidado.

Sobre o Instituto Consulado da Mulher

O Instituto Consulado da Mulher é uma iniciativa social mantida pela Whirlpool Corporation, responsável pelas marcas Brastemp, Consul e KitchenAid, com atuação voltada à inclusão produtiva e ao fortalecimento da autonomia financeira, educacional e emocional das mulheres.

Com 23 anos de trajetória, a organização informa já ter impactado mais de 43 mil mulheres no país.

Fonte: Instituto Consulado da Mulher / estudo Nanoempreendedora em Foco: Identidade e Paradoxo da Autonomia.

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