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Por Helaine Oliveira
Confesso: entrar no Cemitério São João Batista, em Fortaleza, para uma visita guiada não estava exatamente entre os programas mais óbvios para uma tarde de sábado. Mas bastaram os primeiros minutos da tour “Mistérios de Fortaleza” para entender por que a experiência virou assunto na cidade e esgotou vagas tão rápido.


O passeio, conduzido por Renan Silva, estudante de História e criador do canal La Tumba, em parceria com Kris Oliveira, youtuber e criadora do projeto Conhecendo o Sobrenatural, vai muito além da curiosidade pelo tema. O que se encontra ali é um mergulho sensível e surpreendente na memória de Fortaleza. Segundo Renan, o projeto existe há 1 ano e tem sido gratificante. “Eu comecei a me interessas por ir ao cemitério durante a pandemia, daí vi que existe muito mais do que apenas o local de tristeza e homenagens, existe história e legado de quem está aqui, principalmente no São João Batista, que esse ano comemora 160 anos de criação”, comenta o estudante.
De acordo com Kris Oliveira, a busca pelo passado dos que estão sepultados tem atraído curiosos e estudantes. “As pessoas estão buscando mais sobre a história de quem está por aqui. Também tem quem venha em busca das curiosidades, dos casos sobrenaturais e é por isso que unimos os dois temas neste projeto”, diz a youtuber.
Entre mausoléus imponentes, esculturas antigas e corredores silenciosos, o São João Batista se revela como um museu a céu aberto. Cada túmulo parece guardar não apenas restos mortais, mas capítulos inteiros da história cearense.
Durante o percurso, me chamou atenção como nomes que vemos diariamente em ruas, bairros e equipamentos públicos ganham rosto, trajetória e contexto. Estão ali personagens como o Dragão do Mar, Boticário Ferreira, Barão de Studart, João Nogueira Jucá, José Frota e tantos outros que ajudaram a construir a identidade da cidade.
Mas o tour não vive só de fatos históricos. Existe também o imaginário popular e ele tem força. Lendas urbanas, relatos antigos, túmulos cercados por devoção popular e histórias passadas de geração em geração ajudam a criar uma atmosfera que prende a atenção do início ao fim.
Um dos pontos mais comentados é o túmulo da Menina Lúcia, cercado por pedidos, doces e placas de agradecimento. Outro é a famosa história da mulher-serpente, daquelas narrativas que atravessam décadas e continuam despertando fascínio.

Foto: Helaine Oliveira
O mais interessante, porém, é perceber que tudo é conduzido com respeito. Não há espetáculo barato, sensacionalismo ou desrespeito ao espaço sagrado. Há pesquisa, contexto e uma tentativa legítima de ressignificar um local muitas vezes visto apenas como lugar de dor.
Saí de lá com a sensação de que Fortaleza ainda guarda muitos segredos e que boa parte deles está bem diante dos nossos olhos, esperando apenas alguém contar direito.
Em tempos de experiências superficiais e entretenimento descartável, o sucesso do “Mistérios de Fortaleza” diz muito: existe público para cultura, memória e boas histórias. Só faltava apresentá-las de forma envolvente.
Curiosidades:
Entre as personalidades sepultadas no local estão:

Foto: Helaine Oliveira
Frei Tito de Alencar Lima (14/09/1945 – 10/08/1974), frade católico brasileiro e alvo de perseguição da ditadura militar após ser fichado pela polícia devido a sua participação em um congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes (UNE), no ano de 1968.

Foto: Helaine Oliveira
José Ribeiro da Frota (1880–1959), renomado médico cearense, clínico geral, obstetra e cirurgião, que marcou a medicina no Ceará com mais de 50 anos de atuação. Foi o primeiro diretor da Assistência Municipal de Fortaleza, instituição que hoje leva seu nome: Instituto Doutor José Frota (IJF).
Antônio Rodrigues Ferreira de Macedo (1800-1859), conhecido como Boticário Ferreira. Político, farmacêutico e militar fluminense. Foi prefeito de Fortaleza por dois mandatos, de 1843 a 1849 e de 1850 a 1859. Em sua homenagem foi renomeada a Praça Municipal para Praça do Ferreira e é concedida a Medalha Boticário Ferreira pela Câmara Municipal de Fortaleza.
Cesar Cals de Oliveira Filho (1926–1991), militar, engenheiro e político brasileiro nascido em Fortaleza. Foi governador do Ceará (1971–1975) e Ministro das Minas e Energia (1979–1985), defendendo o Pro-Álcool e a produção de petróleo. Também atuou como senador (1979–1987) e empresário nos setores de comunicação e agricultura.

foto: Helaine Oliveira
Francisco José do Nascimento (Chico da Matilde), o Dragão do Mar, abolicionista que teve seu túmulo descoberto recentemente.
João Nogueira Jucá (1941–1959), jovem estudante cearense reconhecido como herói por sacrificar a própria vida para salvar pacientes durante um incêndio na Casa de Saúde Dr. César Cals, em Fortaleza, em 4 de agosto de 1959. Aos 17 anos, ele resgatou várias pessoas antes de sofrer queimaduras graves, falecendo dias depois.

Foto: Helaine Oliveira
Outras sepulturas que chamam a atenção é o Mausoléu de funcionários da antiga Rede de Viação Cearense – Refesa e da menina Lúcia (1915/1917) – que recebe muitos fiéis por graças alcançadas.

Foto: Helaine Oliveira
O túmulo de Lúcia até hoje recebe bombons, doces, tercinhos e placas de graças alcançadas. As visitas acorrem durante todo o ano, em especial, no Dia das Crianças e de Finados. A criança é irmã de Luiza Távora, primeira-dama do Ceará durante os dois mandatos do ex-governador do Ceará Virgílio Távora.

Foto: Helaine Oliveira
Além de conhecer mais sobre a história da nossa cidade, a visita ao Cemitério São João Batista também apresenta algumas lendas e “causos” ditos por trabalhadores e visitantes. Entre esses causos estão o da mulher-serpente. A história conta que o túmulo, localizado no 1º plano do cemitério, pertence a uma jovem que morreu no século XIX. Diz a lenda que uma jovem foi amaldiçoada pela própria mãe (ou por ter desrespeitado os pais) e, ao morrer, transformou-se em uma serpente. Mesmo com as correntes de ferro maciço ao redor do mausoléu, a jovem conseguia sair do túmulo em forma de serpente e saía do cemitério para tomar banho de mar à noite, já que o local é próximo à orla marítima de Fortaleza.

Foto: Helaine Oliveira
Existe ainda um espaço voltado a judeus, que antes não eram enterrados no São João Batista e pontos de devoção e rituais dentro das religiões de matriz africana (como Umbanda e Quimbanda): o “Cruzeiro de Zé Pilintra” e “Tumba de Tranca Rua e Maria Padilha”.
Importante ressaltar que a visita é feita com muito respeito às almas que ali estão e não é admitido tom de deboche ou brincadeiras.

Foto: Helaine Oliveira
Dica de Etiqueta: Ao visitar esses locais, é costume manter o silêncio e não tocar nas oferendas (ebós) deixadas nos cruzeiros ou túmulos, em sinal de respeito às crenças alheias. Aliás, o que está em um cemitério, fica lá. Nada de tocar nas velas, oferendas ou homenagens deixadas por lá.
Quando for, pedir permissão às almas que ali estão antes de entrar, em forma de respeito. Rezar, orar ou pedir paz a quem ali está também é de bom tom que se faça. Ao sair, peça proteção e o principal: não olhe para trás!
Serviço
Tour Mistérios de Fortaleza
📍 Cemitério São João Batista – Fortaleza
📅 Nova data divulgada: 3 de maio
⏰ Das 15h às 17h
💰 R$ 15 por pessoa
📲 Informações e inscrições: (85) 98239-4155 / (85) 99201-0373
🎟️ Realização: La Tumba e Conhecendo o Sobrenatural
